quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A questão ambiental e a emergência de um campo de ação político-pedagógica


Deixo aqui um breve resumo de um capítulo do livro Sociedade e meio ambiente: A questão ambiental e a emergência de um campo de ação político-pedagógica, de Isabel Cristina de Moura Carvalho, fruto de apresentação de siminário da disciplina Meio Ambiente e Formação docente do PPGECM/UFPA.

O surgimento de práticas sociais e pedagógicas em torno da questão ambiental como objeto de interesse público resulta de uma construção histórica recente. Ao longo deste texto, buscaremos, com o auxílio de elementos da historicidade que configura a questão ambiental, refletir sobre algumas das suas atuais configurações, que constituem o campo dos horizontes possíveis para educação ambiental.

As raízes modernas do interesse pela natureza: o surgimento das novas sensibilidades.

As novas sensibilidades nasceram à medida que se evidenciavam os efeitos e a percepção da deterioração do meio ambiente e da vida nas cidades, causada pela Revolução Industrial, por volta do século XVIII. A indústria nascente chega triunfante, trazendo, contudo, sua inexorável contraface: a degradação ambiental. O uso crescente do carvão – principal combustível da Revolução Industrial – para fins comerciais e domésticos gerava uma enorme quantidade de resíduos. O smog inglês (mistura de nevoeiro e fumaça) tornou-se a marca registrada das grandes transformações sociais e ambientais desencadeadas pelo modo de produção industrial.

Outra marca dessa revolução foi a intensa migração campo – cidade impulsionada pela expropriação camponesa, parte dos processos de acumulação primitiva, que acelerava o desordenado crescimento das cidades industriais. Não havia coleta de lixo, saneamento adequado. A propagação de epidemias era altíssima. Os relatos médicos da época registram um aumento significativo dos casos de doença mental, infanticídio e suicídio.

Uma condição que perdurou por muito tempo, como nos lembra Hobsbawm (1994: 223) “Só depois de 1848 quando as novas epidemias nascidas nos cortiços começaram a matar também os ricos, e as massas desesperadas que aí cresciam tinham assustado os poderosos com a revolução social, foram tomadas providências para um aperfeiçoamento e uma reconstrução urbana sistemática”.

A experiência urbana, nesse sentido, condensava violência social e degradação ambiental enquanto duas faces indissociáveis do novo modo de produção.

A experiência urbana, marcada pelas inóspitas condições ambientais, impulsionou o surgimento de um sentimento estético e moral da valorização da natureza selvagem, não transformada pelos homens. Este fenômeno vai repercutir tanto na emergência das chamadas novas sensibilidades para com a natureza, a partir do século XVIII na Inglaterra, quanto das idéias de valorização do mundo natural selvagem nos Estados Unidos, principalmente no século XIX.

Hábitos como de manter em casa um pequeno jardim, criar animais domésticos, fazer passeios ao ar livre, pic-nics nos bosques, ouvir música em ambientes naturais, ir ao campo nos finais de semana, observar os pássaros, são fartamente registrados pela literatura e pintura dos séculos XVIII e XIX.

As novas sensibilidades para com a natureza podem ser tomadas como parte do mundo dos sentimentos e valores privados do indivíduo burguês, que tendiam a generalizar-se num ethos público. Este contexto foi, sem dúvida, favorável para que as novas sensibilidades que valorizavam e idealizavam a natureza se constituíssem como uma transformação cultural importante, de longa duração, que chega até os dias de hoje, como uma das raízes histórico-culturais do ambientalismo contemporâneo.

A questão ambiental contemporânea

A difusão da questão ambiental seja nas lutas sociais, na prática educativa, ou ainda nas ações de organismos governamentais e internacionais, não deixa dúvidas sobre a visibilidade desta problemática na esfera pública.

Talvez ainda esteja longe de ser concluído o pacto que tornará possível uma nova aliança entre a sociedade e a natureza. O que não quer dizer que esta aliança não esteja sendo ensaiada em diferentes oportunidades, o próprio ponto de partida já guarda um campo de divergências a serem explicitadas para que o debate se dê.

Aqui se evidencia o papel da educação da ação educativa orientada para o ambiental. É neste ponto dilemático que se inscreve o espaço privilegiado de uma educação ambiental cidadã, entendida como intervenção político-pedagógica que tem como ideário a afirmação de uma sociedade de direitos, ambientalmente justa.

As múltiplas interpretações do ambiental não garantem uma convergência das suas ações e visões. Para além dos movimentos nomeadamente ecológicos, lutas sociais diversificadas têm assimilado ao seu ideário a dimensão ambiental, conferindo-lhe os sentidos e matizes particulares do seu campo de ação, aumentando, assim, a diversidade do espectro das chamadas lutas socioambientais.

Nas esferas do Estado e do mercado, também surgem uma diversidade de formas de intervenção ambiental, como, por exemplo, novas modalidades de áreas e recursos preservados (reservas extrativistas, reservas de biosfera etc.), a troca da dívida por natureza, as agendas sustentáveis, as condicionalidades ambientais, o ecoturismo, a certificação ambiental de produtos, a conversão tecnológica de processos produtivos etc.

O campo ambiental comporta um alto grau de heterogeneidade, podendo incluir movimentos sociais de filiações ideológicas diferenciadas, políticas públicas, partidos políticos, estilos de vida alternativos, opções e hábitos de consumo etc. É dentro deste terreno movediço e altamente complexo que o (a) educador (a) ambiental vai inscrever o sentido de sua ação, posicionando-se como educador (a) e como cidadão (ã). Daí o caráter não estritamente pedagógico, mas político de sua intervenção.

As práticas educativas, bem como as lutas socioambientais – sejam aquelas levadas pelos movimentos ecológicos ou por movimentos populares que incorporaram a questão ambiental – podem ser compreendidas como parte desse conjunto heterogêneo de valores e ações constitutivas do campo. E, neste sentido, representam uma das possibilidades de agenciamento de uma sensibilidade de uma valorização da natureza enquanto bem estético e vital, com as lutas pelo direito aos bens ambientais e à qualidade de vida.

A dimensão política e educativa das lutas socioambientais

A submissão dos bens ambientais aos interesses privados termina por afetar sua disponibilidade para outros segmentos da população, incorrendo no prejuízo do seu uso comum. Muitas das lutas em torno dos bens ambientais são expressão desta tensão entre interesses públicos e interesses privados. E, na medida em que o que está sendo reivindicado é o caráter público do meio ambiente, trata-se de uma luta por cidadania.

A compreensão da problemática do meio ambiente como um fenômeno socioambiental lança a questão ambiental na esfera política, entendida como esfera pública das decisões comuns. A partir de sua inserção concreta na defesa e/ou disputa pelos bens ambientais, muitas lutas adquirem uma dimensão pedagógica, na medida em que instituem espaços efetivos de questionamento, encontro, confronto e negociação entre projetos políticos, universos culturais e interesses sociais diferentes. Para além de seus resultados imediatos, estas lutas, tanto quanto toda educação ambiental para a cidadania, podem contribuir de uma forma muito concreta para o avanço de um dos grandes desafios contemporâneos: a busca de possíveis novas tecituras entre a natureza entre a natureza e a política – bios e polis.

No debate entre bios e polis pretendemos, mais que fixar um estado de debate ambiental, descrever os fios de tensão, que o atravessam, marcando uma dinâmica de disputa, material e simbólica, pela natureza e seus sentidos. Assim, não se trata de cristalizar um único cenário para educação ambiental, mas problematizar seu horizonte histórico de possibilidades. Felizmente, estamos muito distante do fim da história particularmente desta. Ao contrário, vivemos um momento especialmente intenso e instável de avanços, recuos, e recomposições dos projetos sociais e ambientais.

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